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A criança processo e o pobre adulto resultado

Criança que pergunta “quer jogar?”, te convida para um desejo

por Adolfo Caboclo, 12 de janeiro de 2017
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Aprendi a cirandar depois dos trinta. Agora que se passaram algumas partidas de queimada no coração do asfalto da Paulista, certas considerações sobre a vida ganharam força – ziguezaguearam aqui na caixola. Entendi que na batata quente que é a vida, virou moda achar que queimar é mais importante do que jogar.

Brincar e jogar entram em território do sagrado. Aquele território que circula entre o mundo dos vivos e dos antepassados.

O tal do verbo “play”, que é “brincar” e também “jogar” em inglês, pode nos mostrar como o mundo infantil e adulto é separado no paradeiro da terra Brasil.

Criança que pergunta “quer jogar?”, na real afirma que “quer estar junto”, “quer participar ”, “quer cooperar ”. Um almejar legítimo, um convite para o desejo. Curioso que, na psicanálise, uma das figuras do desejo chamamos de “besetezen” – do alemão significa “ocupar”.

Desejar é ocupar e ocupar é um processo.

Processo que o adulto tende a contemplar com desdém, de forma blasé, e que não entende por fazer parte de um pequeno mundo pontuado na tal da produtividade.

Durante o processo do brincar, a criança vive, se sente feliz, triste, degusta o momento presente e seu cérebro desenvolve o que chamamos de “tomada de decisão”. Chicos pouco se importam com o resultado. E quando se importam, ainda sim veem o processo como tão importante quanto o resultado.

É comum ver o adulto falar: “o casamento de Fulano foi um fracasso, separou depois de 20 anos”. Pobres “crescidos”. Creem que o ato de separar é mais importante do que 20 anos de desenvolvimento e conquistas ao lado de um parceiro. Esse é um típico sintoma de uma sociedade adulta adestrada para valorizar apenas o que pode mensurar, colocar em planilha e tentar prever.

Depois de começar a cirandar, aprendi que sempre o ambiente irá nos impor algo. Quando pulo corda, as regras da minha realidade são impostas, justamente, por uma corda. E assim aprendi a não me decepcionar com elementos do mundo, como vento e a chuva. Entendi que nós, adultos, somos mestres em refinar sentimentos de frustração na criançada. Colocamos expectativas. No momento em que a felicidade se concentra em um ponto – o tal do resultado – a infelicidade da criança pode estar, por exemplo, no caminho entre uma loja de brinquedos e outra.

Brinquedos também são complicados. Antes de aprender ciranda, aprendi a ser publicitário. Já entendia que o brinquedo licenciado é uma mídia – das mais persuasivas e rentáveis -, mas não compreendia que, no momento em que a criança interage com um brinquedo desses, ela também perde uma parte relevante da construção de suas próprias narrativas.

Pobre do homem que não aprendeu a impor sua própria narrativa: alguém vai impor uma narrativa que não lhe é legítima. E vai absorve-la.

Cá pra nós, duas dicas: o livro “Quer Jogar?”, da Adriana  Klisys, editora Sesc São Paulo, e também o filme Território do Brincar (2015), dirigido pela Renata Meirelles e o David Reeks. Mas cuidado, o conteúdo é subversivo, viu? Você pode começar com isso e ir para locais ainda mais transgressores, como uma partida de esconde-esconde, por exemplo.

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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