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A personalidade dos peixes de Mato Grosso do Sul

Cardumes prateados e multidões amarelas.

por Adolfo Caboclo, 15 de março de 2016
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O cheiro que predominou foi o de mato. Morto [depois de tantas cacetadas da vida], era o meu estado de espírito.

Esse ano passei um carnaval off-line. Rodedado de Fernada, livros e maritacas, na sugestiva cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul.

Por lá, páginas de Rubem Alves, Dostoiévski e Gertrude Stein foram degustadas todos os dias. Absorvidas em tardes em uma rede, tardes posteriores às manhãs de cachoeiras, grutas e libélulas. Mas existiu algo que despertou minha atenção – esta que se aparentava tão preguiçosa nesses dias de carnaval às avessas: minha atenção foi tomada pelos peixes.

Antes de Bonito, cardumes eram massas homogêneas aos meus olhos. Peixes eram simplesmente peixes. Todos iguais – quase que clones. Ponto final.

Foi flutuando em um desses rios sul-mato-grossenses, penetrando no meio de infinitos peixes, que comecei a reparar na fisionomia de cada um desses animais e, quem diria, descobri um mundo de diferentes expressões.

É sério.

Embaixo d`água vemos peixes tristes, bravos, autoconfiantes, sofridos. Alguns parecem te olhar com surpresa. Outros exalam medo. Para muitos, indiferença.

Em algum momento, no meio das águas prateadas, eu saia das profundezas e me deparava com a mata. Por lá, macacos pregos e aves também se expressavam. Nenhum deles com tanta personalidade quanto os peixes. Me pareceu que a vida nos rios é mais sensível.

Talvez por ser submersa no condutor universal: a água. Além disso, esse formidáveis animais escamosos possuem a tal da linha lateral, que é um sexto sentido que capta as vibrações aquátiacas.

Um astrólogo, finalizaria minhas suspeitas falando de peixes aos olhos da astrologia: os piscianos são os mais sensitivos.

Sei lá, acho que esses peixes me humanizaram. Um cardume prateado com mais personalidade que as multidões amarelas que vi recentemente. Já aqui em São Paulo, na última semana, o cheiro que predominava em minhas narinas foi morto [depois de tantas cacetadas da mídia] e tudo isso agride tanto o meu estado de espírito.

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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