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Foi em Cinque Terre, lendo ‘O Velho e o Mar’, que eu entendi

Em frente ao Mediterrâneo, sobre uma rocha, com um livro

por Adolfo Caboclo, 22 de novembro de 2016
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Foi em Cinque Terre, lendo “O Velho e o Mar”, que eu entendi.

Foi naquele litoral tão pedregoso, mais especificamente em Riomaggiore, encarando os ventos oceânicos como se fosse o mastro dianteiro de uma velha caravela. Foi sentado em um rochedo, brincando de ser rocha, que percebi o quão impossível é ser rocha.

Acho que por algum instante – lembrando que instantes são subjetivos – até que dá pra ser. Mas as rochas têm longevidade e consistência invejáveis. E mesmo com atributos tão “rochísticos”, ainda assim, elas sucumbem com o tempo perante a grandiosidade do oceano. Também são engolidas pela verdejante flora italiana que as encurralam no mar. Pobre sina de ser rocha. Talvez por não mudarem. Por não marearem com o mar, nem ventarem como o vento ou “desabrocharem” como o mato: morrem esfareladas.

Enquanto isso, eu lia sobre o velho pescador Salvador – o velho do mar de Hemingway. Me encantava com sua personalidade. Com o barco em que flutuava, com o marlim que fisgara e com o golfinho que comera. Com o seu entendimento de que tudo aquilo era sua extensão. O velho entendia que ele, os peixes, sua narrativa e tudo mais, teriam que ser mar. Salvador amava ser mar.

Já eu, marujo com medo d’água, se quer entendia o motivo de meus lábios salgarem e soltarem palavras secas. Não entendia que estava me afogando. Não via os tubarões que me devoravam da forma mais filha da puta possível. Me fazendo parecer louco em momentos de calor, me obrigando a engolir sozinho a culpa nos dias subsequentes.

Gente que não entende que é mar vira jantar no cardume. Gente que não entende que é mar tenta ser rocha e se esfarela. Gente que não entende que é mar jamais poderá ser Iemanjá.

Nesse momento chorei. Com um pouco de dó das rochas de Riomaggiore, com um pouco de vontade de ser tsunami e não deixar pedra sobre pedra. Via barquinhos de pescadores parecerem um colar colorido sobre a imensidão azul. Lembrei que aquele é o mar mediterrâneo: azul, calmo. Tão diferente da raivosa massa verde que cresci prestigiando na praia do Recreio.

Cinque Terre poderia ser o Rio. Casas simples, honestas, em bairros seguros que encrostam as pobres rochas da beira-mar. Sem mansões, sem miséria. Apenas barquinhos e feirantes vendendo frutas e legumes. Muito peixe frito pra beber com a cerveja que nos faz dançar como mar ou vento. Mas talvez, se o Riomaggiore fosse de Janeiro, não teria brotado o samba.

Toda vez que eu lembro da ignorância que flagela o Rio, me lembro que, pelo menos, dali brotou o samba: esse sim, que resiste mais que as rochas. “Habitada por gente simples e tão pobre, que só tem o sol que a todos cobre. Como podes, Mangueira, cantar?”. Cartola não precisou de um Rio“maggiore” pra refletir sobre isso. Gente que entende que é mar pode jantar qualquer rio.

E foi em Cinque Terre, lendo “O Velho e o Mar”, que eu aprendi a tentar ser mar.

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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