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A Passagem Literária da Consolação e sua livreira Dona Odete

por Adolfo Caboclo, 26 de outubro de 2016
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Admiro cidades que sabem o que enterrar. Aprendi isso por viver em uma metrópole que insiste em enterrar rios e manter fios elétricos no alto de postes; onde vias para carros e trens costumam ser aéreas, mesmo quando engenheiros indicam que devem ser subterrâneas: seus realizadores costumam optar pelo que aparece mais aos olhos da população. A ponte no lugar do túnel.

Também existem lugares que nasceram enterrados ao acaso. Em São Paulo, por exemplo, tem um onde milhares de pessoas passam diariamente: lá debaixo da Consolação, perto da esquina com a Paulista. Alguns o utilizam apenas como passagem, outros para garimpar conhecimento e também não faltam os que passam lá e perguntam: “aqui é o metrô”?

Dona Odete, uma das guardiãs subterrâneas desse local, sempre responde: “não, aqui é a Passagem Literária da Consolação”.

E o pior é que a Passagem Literária da Consolação já é passagem literária há mais de 10 anos. Naquela que talvez seja a esquina mais movimentada da maior cidade do hemisfério sul do planeta. Como que ainda pode ser uma novidade para alguns?

Passagem que nasceu no momento em que o então prefeito José Serra resolveu tirar todos os livreiros ambulantes da Augusta e o seu então subprefeito, Andrea Matarazzo, tentou contornar essa situação cedendo o local, na época abandonado, aos livreiros.

Esses livreiros começaram a construir a Passagem – cheia de lixo e abandonada – do “zero”.

“Aos poucos, artistas foram sendo alojados. Colocamos luz, o cinema (o vizinho Belas Artes) ajudou com o varal de exposições”, lembrava dona Odete sobre os primeiros dias da Passagem que hoje abriga, além de um dos sebos mais ricos da cidade, exposições mensais e também recebe shows de bandas independentes consagradas de jazz e punk rock.

Hoje, quando passo por lá, não me encanto apenas com as exposições, com os títulos de livros e com a música ambiente. O local é todo grafitado por artistas urbanos da pesada. Crânio, Mundano, Titi Freak e tantos outros já jorraram seus sprays por debaixo da Consolação.

“A cidade tem que ter sua vazões, ter saídas. Ela não pode ser só bar. São Paulo é uma cidade cansativa: não tem que derrubar o Minhocão ou qualquer outro lugar, tem que ressignificar; tem que olhar com outros olhos pra cidade”, me disse dona Odete de forma pensativa e complementou: “todo mundo se vê como turista da cidade. Não somos turistas dessa cidade. A cidade é nossa! Não moramos na Europa”.

De certa forma, dona Odete com suas palavras me fez pensar que, talvez, tenhamos enterrado nosso orgulho e elevado nossa falta de cidadania aos céus. Detesto cidades que não sabem o que enterrar.

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Dona Odete

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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