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Aqueles que rasgam os céus das noites de sexta-feira

Os meninos que se reúnem no Aterro para empinar pipa

por Adolfo Caboclo, 9 de maio de 2017
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O Aterro estava dourado, com o sol mergulhando no horizonte. Enquanto isso, eu repousava junto à minha morena em uma das banquetas do boteco Belmonte. Por lá matava a saudade de seus chopes e, em especial, de suas generosas empadas de siri: sempre tão volumosas e bem temperadas.

Por alguns momentos, meus pensamentos se distanciaram do presente, regressando à década passada, nos tempos em que eu trabalhava na casa Julieta de Serpa – palacete cultural localizado no quarteirão ao lado. Naqueles tempos, meu serviço era servir a nobreza carioca, mas não tinha dinheiro para as tais empadas de siri.

Quem por algumas vezes pagou o meu chope no Belmonte foi o saudoso Durval Ferreira. Naquela época ele era diretor musical da Julieta e por lá trazia figuras como Carlos Lira e Paulinho Trompete para sacolejar o palacete. Depois dos shows, Durval gentilmente oferecia um chope ao “garoto da recepção” – no caso, eu. Era maravilhoso escutar suas histórias sobre o Rio dos anos 60 e 70 e também sobre os bastidores da Bossa Nova. Ele não perdia uma única deixa para falar sobre sua música de maior sucesso, “Batida Diferente”, eternizada pela voz de Leny Andrade.

Foi um vibrar do telefone que me fez voltar para 2017. Uma amiga da faculdade me convidou para uma festa no próprio Aterro, a Breakz, próxima às quadras do Catete. Neste momento a escuridão já tinha engolido o dourado da costa carioca e os chopes – estes sim, pagos com o meu próprio dinheiro – me provocaram uma vontade de dançar ao lado da minha companheira por algumas horas.

No momento em que encontramos a amiga, ela cuidadosamente nos apresentou a uma série de detalhes sobre a festa. Gradualmente expunha a maestria com que a juventude carioca ocupa o espaço público. Por lá escutei músicas cheias de personalidade e os diferentes sotaques da cidade.

Em pouco tempo fiquei amigo da Dona Isaura – mulher forte e de sorriso largo. Minha elegida para ser a pessoa com quem eu compraria cerveja a noite inteira. Foi por volta das 23 horas daquela sexta-feira que, no momento em que Isaura separava meu troco, escutei uma gritaria vinda da praia.

Chamei minha companheira e também a minha amiga que nos guiava para averiguarmos o que se passava na areia. Nos deparamos com três, talvez quatro dezenas de garotos soltando linha, empinando suas pipas.

Meninos livres, de panturrilhas bem torneadas pela areia. Competitivos: com suas linhas afiadas se tornavam predadores do ar. Muitas vezes gritavam,, como guerreiros, palavrões e mandingas impronunciáveis.

Seus papagaios, arraias, peixinhos e maranhões cobriam o céu. Cravejavam o manto negro. Apareciam nas alturas onde nem mesmo a imensidão do Pão de Açúcar conseguia aparecer.

Esses meninos, de tão pouca idade, pareciam ser o que tinha de mais incrível naquela noite carioca. Eram a personificação de um mundo mais sincero. Menos mesquinho. Que preferia voar em vez de lamentar a falta de generosas, mas excludentes, empadas de siri do Belmonte.

 

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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