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Cultura 2.0 beta

Nesse ano, tivemos que nos reinventar. Para o setor cultural não foi diferente.

por Gabriel Caracho Ribeiro, 10 de julho de 2020
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Nesse começo de ano, não é novidade nenhuma que todos nós tivemos que nos reinventar. Rever a forma que nos relacionamos com a família, com os parceiros ou com os amigos.

Para o setor cultural, não foi diferente. Está sendo especialmente complicado, com os protocolos da pandemia e o isolamento social. Sem poder abrir, bares estão tentando focar em entregas; casas de shows estão fechadas, reduzindo quadro de funcionários e pagando valores reduzidos aos que conseguiram manter o emprego; companhias de teatro estão tentando fazer peças por lives, assim como bandas e etc.

Eu tenho muitos amigos que são DJs, músicos, produtores culturais. Para essas pessoas, o ano está sendo desesperador, já que não possuem vinculo com nenhuma empresa e estão sem segurança profissional para os próximos meses.

Quem consome desse setor, tinha como válvula de escape shows, eventos, baladas, cinema e teatro, mas agora tem que lidar com suas neuras e problemas sem ter nenhum escape. Não sei vocês, mas eu sou uma dessas pessoas!  Plenamente impactadas e as duas coisas que mais me animavam sempre foram shows e cinema.

Isso tudo mudou nosso consumo de cultura, e é sobre isso que quero lidar aqui.

Dentro desse cenário, o cinema foi o que teve mais opções. Muitos filmes que estavam previstos para os últimos meses foram lançados direto para o streaming, como o “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” (Onward, no original), que nos EUA foi lançado direto na Disney+ (plataforma que chega por aqui no final do ano), e que no restante do mundo foi lançada em parceria com a Prime Vídeo (da gigante Amazon), alavancando – juntamente com os demais títulos originais de cada plataforma – seus números de assinaturas e acessos.

Com o aumento de acessos nas plataformas, até reduziram a qualidade de transmissão para não atrapalhar o tráfego. Também foi o caso da Netflix, que ganhou muito tráfego na sua rede desde o começo da pandemia, somando 15,77 milhões de novos assinantes mundialmente, 2,9 milhões só na América Latina.

Conheço muita gente que não tinha o costume de ver séries e filmes com regularidade e agora já maratonaram diversas. Isso é bom por diversos motivos, tanto pela valorização do mercado, quanto por gerar maiores referências de repertório para muita gente.

A cultura muda as pessoas: seus costumes, pensamentos e pode impulsionar o mercado interno de séries e filmes (lógico, isso também depende do governo, o que me deixa temeroso).

Outro segmento que teve opções foi o da música. O mercado sem festas e shows, se apoiou em lives e festas online. O que nos dá certo acalanto, mas não substitui. No começo da pandemia, foi interessante esse movimento de lives, foi divertido assistir apresentações dos mais variados estilos, mas isso também mostrou o grande abismo do acesso de apoio a bandas menores, bandas com públicos mais segmentados e bandas cover.

Aqui também exponho a sacanagem de alguns bares de grande expressão, que se aproveitaram de seus espaços para fazer lives, mas ou cobrando valores questionáveis, ou propondo divisões de doações dentro das lives que se reverteriam em praticamente nada para as bandas. Quem vê as lives patrocinadas por grandes marcas, como por exemplo a Brahma, não vê a dificuldade dos pequenos, que estão sendo muito mais impactados pela falta de apresentações do que artistas consagrados, que já ganham muito dentro em streamings, patrocínio e etc.

As festas online, ou pelo Zoom, também implicam em problemas, porque é necessário equipamento próprio, e muitos DJs não possuem esses equipamentos, sempre dependeram dos bares e baladas. Isso sem contar que, também, não se consegue receber o suficiente se não tiver interesse e, cá entre nós, dançar no quarto ou na sua sala não é a mesma coisa.

Dentro desse buraco que a falta de música ao vivo abriu nos nossos corações, os streamings de música também se beneficiaram. Há maior acesso e procura. Segundo o Spotify, não há mais um horário de pico, os acessos estão sendo diluído durante o dia – meio que igualitariamente.

O lado bom foi que tivemos muitos lançamentos de artistas consagrados, como Lady Gaga, Madonna, Pearl Jam e Strokes. A própria Lady Gaga falou em adiar o lançamento de seu álbum, mas no final lançou no último mês.

Defendo muito que a música tem um grande poder de aliviar nossas dores e angústias. Em uma hora dessas, essas coisas frescas ajudam muito, mas devemos lembrar que hoje em dia,  lançamentos de discos também servem como muleta para divulgar turnês de artistas que ganham a maior parte de seu dinheiro através delas. Não veremos o reflexo desses lançamentos dentro da pandemia e a procura por shows nos próximos anos. Até voltarem os grandes eventos, esses álbuns podem já estar saturados.

Agora, dois segmentos tiveram muita dificuldade em conseguir oferecer algo nesse momento – e muito porque neles, a experiência única da proximidade não pode ser substituída -, foram os museus e os teatros.

Ambos tentaram alternativas. Vários museus criaram tours virtuais e alguns até já tinham essa alternativa, mas novamente, a experiência da presença física ainda não consegue ser substituída.

Já o teatro, tenta se reinventar e quebrar essa quarta parede virtual. Um exemplo dessa reinvenção é o pessoal do Corpo Rastreado, que está fazendo transmissões dos espetáculos que produzem pelo YouTube. Eles produzem a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” – inclusive transmitiram essa bela peça, estrelada pela Renata Carvalho, no Corpus Christi, fazendo o questionamento “E se Jesus voltasse nos dias de hoje como uma travesti?”. Um espetáculo que trata o tema com delicadeza e intensidade maravilhosa, mas que vem sendo perseguido e censurado nos últimos anos.

Voltando para esse mercado cênico, eu diria que essa pode ser uma saída – até para o futuro do mercado -, facilitando o acesso para as pessoas que não possuem o costume de frequentar teatros e performances. 

Imagino que eu já me alonguei demais. Até me enrolei, é tanta coisa que falei aqui! Mas a realidade é que todo esse setor cultural, principalmente pensando no nosso mercado brasileiro, precisa encontrar alternativas e se reinventar mesmo, porque, infelizmente, as perspectivas de retomada de uma normalidade não são boas. Devemos demorar muito mais do que outros países para conseguir ter essas experiências novamente. As pessoas que dependem dessas atividades, vão precisar do nosso apoio.

Então, vá na página dos seus amigos que fazem arte, curtam, compartilhem, sigam e apoiem os produtores culturais, as companhias de teatro, assista séries nacionais e, principalmente, valorize o que está sendo feito aqui no Brasil. Só vamos sair disso tudo mais fortes e melhores, se estivermos todos juntos e se quem depende de cultura no Brasil estiver motivado para produzir ainda mais coisas incríveis e construtivas para todos nós!

 

Renata Carvalho no espetáculo "O evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu". Foto de Luciene Pires Ferreira.

Renata Carvalho no espetáculo “O evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu”. Foto de Luciene Pires Ferreira.

 

Gabriel Caracho Ribeiro

Gabriel Ribeiro (Gabs) é publicitário de formação, Dj, cinéfilo e nerd. Adora tatuagens, conhecer pessoas e apesar de tímido é de uma boa conversa sobre assuntos culturais, políticos, musicais e até filosóficos.

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