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Um Belo Horizonte é subjetivo

Depois de mil voos tortos, Minas é garimpada

por Adolfo Caboclo, 16 de dezembro de 2016
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Tive “asas de leite”. Que me foram úteis por algum tempo e, posteriormente, vieram a cair. Infelizmente, ao contrário dos dentes, minhas primeiras asas demoraram para despencar. As definitivas ainda não terminaram de crescer. Doem. Certas vezes dilaceram a pele a arranham as escápulas. Com elas já volitei em mil voos tortos.

Sempre almejei maestria em minhas jornadas – poder afirmar alguma frase de impacto que transmita domínio de rotas, como por exemplo, quando Neruda falava que foi “capitão de terra firme”. Mas não. Nunca dominei porra alguma. Apenas flutuei.

Já senti frio com a neve e o fervor dos trópicos. Submergi no sal do Mediterrâneo e no Negro manauara. Já me fechei no chão em busca de abrigo para tiroteios e terremotos. Ver tantos dias azuis me fez entender melhor os céus com cor de ferrugem e perceber que o conceito de um Belo Horizonte é subjetivo.

Da vida mineira que garimpei nos últimos meses, os cafés matinais foram de bolinhos alucinógenos do Malleta e quase chamei o Edifício JK {com} doce lar. Assim reencontrei o juízo de outros tempos. Aquele juízo mal encarnado, que me faz voltar ao rascunho do patriarcado que não deu certo.

Não vi a Praia da Estação. Mas vi seu legado nos quatro pilares do hip hop. Em blocos. Em ocupações. No solo sagrado de Luiz Estrela e na saia rodada do carimbó do Baixo Centro.

Muitxas foram as referências e por algum momento Santa Tereza emanou uma luz que a Lapa carioca perdeu, que a Augusta paulistana só pisca.

A poesia marginal passarinhou; vandalismo literário; o slam deixou de ser flerte e virou paixão. Paixão brava que me avermelha. A bandeira mineira já escancara: sempre tem um triângulo impedindo que o rubro transborde – me pergunto o que farão quando os utópicos também se organizarem.

Em um devaneio não tive dúvidas que o dia que mil pretas pegarem um microfone e mil trans baterem martelo, esse dia será um dia belo-horizontino. E será celebrado com cachaça, cigarro de palha e bolinho da Martinha. A dicotomia será apenas entre o galo e a raposa. Gigantes cósmicos em um cenário fodidamente multicolorido.

O dia que meus voos não forem mais tortos, flutuarei com facilidade pelo ar tão pesado desse Belo Horizonte. Beleza é subjetiva, mas até lá os ninhos não precisarão regras, não existirão mais asas de leite e o triângulo já terá transbordado.

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Adolfo Caboclo

Comunicólogo, pós-graduado em administração e em neurociência e psicologia aplicada. É um dos fundadores do Coletivo Não Só o Gato, do Movimento Cidade Lúdica e do Cia Suspirada de Palhaços Amadores.

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