Assuntos

A bailarina Karen Ribeiro e seu Ballet Adulto KR®

por Fernanda Miranda, 28 de agosto de 2013
, ,

Karen Ribeiro é uma bailarina clássica profissional, daquelas que está sempre com um coque impecável, sem ao menos um fio fora do lugar. É rigorosa com sua dança, com cada movimento dentro do palco e, claro, também é assim com suas alunas. Ah, esqueci de falar, ela também é professora de ballet clássico na escola Ballet Adulto KR®. Bem, até agora eu poderia estar falando de uma bailarina típica que um dia resolveu dar aulas, se não fosse algumas ressalvas: Karen tem 1,52m de altura e nasceu com uma deficiência na perna direita que fez uma de suas pernas ser menor que a outra. Além disso, ela não é professora de crianças, jovens ou até adultos que fazem ballet desde muito jovens, mas sim de alunas de todas as faixas etárias que nunca calçaram uma sapatilha antes ou que ficaram muito tempo sem calçá-las..

Cada fato isolado poderia ser um entrave para alguém que sonha em ser bailarina e professora de ballet, mas, no caso da Karen, o que aconteceu foi exatamente o contrário. Esses obstáculos a deram ainda mais força e determinação para alcançar tudo aquilo que ela tanto sonhou. Assim, indo pelo avesso do que o mundo esperava [leia seu depoimento aqui], se formou em ballet clássico pela metodologia cubana, ganhou diversos prêmios e fez parte do corpo de baile do Teatro Municipal de São José do Rio Preto e do Raça Cia. de Dança. Hoje, os números dizem por si só: as prateleiras com troféus na escola já não cabem mais prêmios, e Karen acaba de voltar de uma viagem da Argentina com mais um prêmio de primeiro lugar no currículo. Esse ano a bailarina já se apresentou no palco 13 vezes, e acha que ela quer parar? O Ballet Adulto KR®, que começou em 2009 com quatro alunos, hoje realiza o sonho de mais de 350 alunos. A página da escola no Facebook tem mais de 30 mil curtidas, o blog da escola, com mais de 120 seguidores, bate recorde de visitação a cada novo post publicado, sendo que as visitas vem de todos os lugares não só do Brasil como do mundo.

Entrevistei a Karen em sua casa, que só de colocar o pé lá dentro já percebi que tratava-se de uma casa de bailarina. Sapatilhas e tutus estavam espalhados por onde eu olhasse. As orquídeas na sua varanda eram lembranças de alunas que as presentearam na tentativa de agradecimento pelas intermináveis horas investidas nelas. A conversa só foi interrompida em alguns momentos pelas lambidas da Tuca, cachorra (linda!) e companheira inseparável da bailarina.

Não Só o Gato: Karen, com quanto anos você começou a dançar?

Com três anos de idade. Na verdade, eu tenho duas trajetórias como bailarina. A primeira foi dos três até os 18 anos, e a segunda quando eu retomei, com cerca de 30 anos.

NSG: E por que você parou o ballet no meio dessas duas trajetórias?

Por causa da minha saúde. Eu tive anorexia. Meus pais queriam que eu fizesse uma faculdade, queriam um diploma. Daí eu resolvi mudar de rumo, e fui fazer Terapia Ocupacional e me especializei em Geriatria. Eu resolvi largar a dança, deixei até de ser espectadora. Porque no fundo me dava dor, eu não queria ter largado. Nessa época, depois de formada, cheguei a pesar 73 quilos. Eu tinha uma vida aparentemente perfeita, trabalhava numa clínica geriátrica, tinha uma carreira em ascensão. Mas estava triste. Até que um dia um paciente me falou: “Seus olhos brilham tanto quando você fala do ballet. Por que você não volta?” Daí eu voltei.

NSG: E como foi voltar pro ballet?

Eu comecei a procurar escolas de ballet que oferecessem aulas avançadas para adulto. Fiz algumas aulas, mas era tudo muito amador. Eu entrava na sala de aula vestida de rosa e preto, e as pessoas comentavam, “olha lá, a bailarina antiga”. Como assim, bailarina antiga? Eu sou bailarina clássica, ué. Então esse caminho foi um pouco estranho para mim. Até que eu comecei a fazer aula em uma escola e perguntei para a dona se eu podia ser professora de algumas turmas. Ela topou, aí nesse caminho eu fui procurar me especializar e voltei pro Cuballet, pro curso de professores. E daí passou um ano que eu estava nessa escola, eu cheguei um dia para dar aula e tinha um outro professor dando aula no meu lugar. Foi uma puxada de tapete, mas se não fosse isso, eu não estaria hoje com o Ballet Adulto KR®.

NSG: Como começou a história do Ballet Adulto KR®?

Eu me inscrevi para dar aulas no Studio Ana Esmeralda. Lá já tinha dois professores com renome, mas que não tinham foco no bailarino adulto iniciante. No mundo do ballet adulto, até então, existia só o aluno avançado. Mas o meu foco era o adulto iniciante, que queria começar o ballet do zero, que nunca tivesse feito. O Studio gostou da minha idéia e resolvemos tentar. Então eu entrei no Studio Ana Esmeralda em 2009, com quatro alunos que eram quatro amigos, terminei aquele ano com 50 alunos. Hoje, em 2013, eu tenho mais de 350 alunos. Mas é uma entrega, tem dia que eu dou aula desde às 8 da manhã até às 23:30 [Ela dá 28 aulas e faz 8 aulas por semana]. Além disso, eu tenho que dançar, porque se eu não danço eu desestimulo meu aluno. Eu sinto que quando danço e ganho um prêmio, eu não estou ali por mim. “Ela, baixinha, gordinha, velha, não tem problema com isso. Ela acredita, vai lá e mostra que seu trabalho é bom”. Eu estou representando um monte de gente que não se acreditava, ou que tem dificuldade de acreditar no próprio sonho. 

 NSG: Qual é a diferença de dar aula para uma criança e para um adulto?

O lúdico da criança necessário para traduzir a técnica e transferir os conhecimentos é totalmente diferente para o adulto, que gosta de racionalizar e de apontamentos lógicos.No adulto é possível mudar prioridades. Pular etapas, retroceder, anteceder. Eu tive pouquíssimas experiências com crianças, afinal, sou gerontóloga. Ballet para os adultos além de arte é sinônimo de entretenimento e saúde, investimento nele mesmo. Um grande aprendizado diário! 

NSG: O que, a cada dia, motiva você a continuar?

Meu sonho. Sempre foi meu sonho ser bailarina. Meu sonho não era ser terapeuta. Eu sinto que, cada vez que eu penso em desistir, vem muitas pessoas pedindo para eu não fazer isso. Eu não sei o que isso significa, eu só sei que hoje eu estou muito feliz. E hoje todo meu tempo é da minha escola, da minha dança. Eu não vou ao cinema, nem ao shopping, e quando viajo é para dançar, depois eu volto. É errado dizer que eu não tenho tempo, pois eu tenho tempo sim, para fazer o que eu amo. Que é dançar.

karen

Alunas do Ballet Adulto KR® no espetáculo "Tributo a uma dama".

Alunas do Ballet Adulto KR® no espetáculo “Tributo a uma dama”.

Alunas do Ballet Adulto KR® no espetáculo "Tributo a uma dama".

Alunas do Ballet Adulto KR® no espetáculo “Tributo a uma dama”.

karen3

Foto de capa: Renato Hatsushi // Fotos da matéria: Lilian Knobel e Renato Hatsushi

Fernanda Miranda

Recém-formada em jornalismo e editora do Não Só o Gato. Ama história em quadrinhos, os textos da jornalista Eliane Brum, as trilhas sonoras dos filmes do Woody Allen e azeitonas.

More Posts

Comentários